Olhei a mesa posta e recordei o passado.
Recordei vozes que já não ouço.
Sorrisos estampados em rostos desfigurados.
Foi o tempo...
Recordei gritos e gestos.
Sombras na parede.
Senti doerem dentro de mim dores já doídas em outras eras.
Passaram, morreram.
Então por que voltam?
As sombras que viraram nada me voltam agora e me cobram que as olhe.
Sinto um cheiro e quero decifrá-lo. Remexo as gavetas da memória.
Ele chega então.
Me vejo menina-moça entre os canteiros.
Um gramado tão bem aparado.
Um sorriso num rosto estampado.
Umas mãos calosas, calorosas.
O cheiro é de grama cortada. Cheiro de verde, de vida.
O jardim do tempo...
Nunca que vai morrer dentro de meu íntimo tudo que vivi.
As dores que senti.
A alegria...
Nunca.
As vozes, os sentimentos.
Tantos momentos...
Alegria e dor se mesclando.
Sorriso e pranto.
A tigela está trincada. O trinco atravessa a figura nela estampada.
Ele fica ainda mais feio na parte onde o rosto da princesa se destaca.
Pobre princesa, eu penso.
Pobre tigela velha.
Pobre de mim que fiquei só.
Meio perdida entre as lembranças...
sonia delsin

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