domingo, 18 de maio de 2014


AREIA NOS MEUS OLHOS

Quando lá eu cheguei confesso que não gostei.
Não gostei da casa, porque achei pequena demais e feia. Não gostei do lugar também.  Pra falar a verdade de nada eu gostei.
Uma das razões que me fazia desgostar dali era que havia areia por todo canto.
Estar ali me dava vontade de chorar.
Que desânimo eu sentia em me mudar para um lugar como aquele!
Nunca vou me esquecer de minha mãe penalizada vendo-me tão descontente e tentando me animar (estávamos as duas sentadas num banco de praça enquanto meu filho brincava com seu velocípede).
Eu já sabia que muitas vezes teria os olhos cheios de lágrimas, mas era necessário e eu faria esse sacrifício (dizia isso a ela).
Quantos sacrifícios eu já não tinha feito em minha vida e era só mais um.
Mudamo-nos em meio a imprevistos e dificuldades, mas mudamos.
Pra me chatear ainda mais a cozinha era tão pequena que toda vez que eu passava pelo fogão esbarrava nele e arranhava a coxa. Até hoje estas marcas existem e me trazem lembranças.
O piso era rústico. Horrível, e por quanto tempo aturei aquilo. Eu jogava água pra baixar o pó. E como havia pó naquela casa. Por todo canto aquele pó fino adentrava. Os móveis, as cortinas, os tapetes, as roupas, tudo ficava impregnado.
O quintal não era murado e com um filho pequeno que trabalhão eu tinha. Afinal eu não o queria brincando na rua.
A rua era sossegada. Sossegada demais pro meu gosto.
Uma noite me assustei com batidas na porta. Eu e meu filho estávamos sozinhos (o pai dele naquele tempo trabalhava em outra cidade e nem sempre podia estar conosco) e no bairro tão poucas pessoas residiam. Não tive coragem de atender e fiquei abraçadinha ao meu menininho esperando que a pessoa desistisse. Não era alguém conhecido, porque se fosse teria chamado por meu nome.
Com o tempo um primo meu fez uma cerca de bambu nas laterais da casa e na frente tivemos condições de erguer um muro.
Tempos duros aqueles. Muito duros mesmo.
E a falta d’água? Eu tinha que me levantar muito cedo (de madrugada) pra lavar roupa e armazenar água, porque no decorrer do dia ela desaparecia da torneira.
Com o tempo fui construindo um jardim e plantei um gramado pra tornar mais agradável o nosso quintal. Pra dar frescura à casa.
Eu não suportava tanta areia.
O jardim foi ficando bonito e eu não me importava nadinha de me levantar tão cedo para molhá-lo.
Os anos passavam e poucas reformas fizemos na casa, mas com o tempo um piso foi colocado pra cobrir o cimento rústico que tanta me fazia penar.
Fizemos uma cozinha espaçosa. Não era nada com muito luxo, mas melhoramos um pouco a nossa casinha.
O jardinzinho mais bonito se fazia a cada dia. Todos comentavam que era um milagre um jardim tão florido e fresco num solo tão arenoso.
Quando engravidei de meu segundo filho eu ainda não estava contente de morar naquele lugar. Na verdade eu nunca senti alegria ali. Não me acostumava e ansiava pela hora de partir.
Foi um dia olhando o horizonte que meus olhos se encheram d’água e areia.
Eu ia ser mãe novamente.
Isto me deixava numa grande euforia. Tanto eu queria este segundo filho. Tanto eu queria e logo ele chegaria.
Pouco tempo depois de seu nascimento nós partimos, pois outra vida nos esperava. Parece que este filho me trazia uma força, uma coragem de recomeçar em outra cidade.
Há horas em minha vida que transporto para aquela casa rodeada de areia, onde com paciência e amor eu construí um jardim.
Quando tudo está difícil eu me recordo das coisas que passei. Do meu descontentamento e da esperança que eu tinha de me mudar.
Não era pela falta de luxo, pelo desconforto da falta d’água ou porque eu não gostasse de morar na periferia, era algo diferente que me fazia sofrer.
Era um lugar onde eu nunca desejara estar. Era um local que me entristecia a alma. Um local que me deprimia, que me roubava a alegria.
No dia que nos mudamos eu não olhei pra trás. Estava deixando algo me nunca me agradara e partia com o coração tão feliz.
Não sei o que foi feito do jardim que construí... Realmente eu não sei se a areia ainda chega com o vento adentrando em todo canto... não sei.
Só sei que precisei estar lá por um tempo e as marcas ficam na gente. Não necessitamos estar sempre recordando o passado e principalmente o que nos entristecia, mas hoje em dia quando estou sofrendo recordo que passei por coisa muito pior e aguentei.
Adoro minha casa, este canto onde vivo agora é um paraíso. O meu pequeno paraíso. Aqui existe paz, tranqüilidade, espaço. É um lugar que completa minha alma totalmente. A água é abundante. E pássaros cantam no meu pequeno jardim, borboletas e colibris me visitam. E as andorinhas moram em meu telhado. Os ninhos se renovam constantemente e elas estão sempre revoando por aqui...
Sou feliz aqui... tão feliz. Encontrei meu lugar neste planeta. É este onde vivo hoje em dia.


sonia delsin

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