segunda-feira, 19 de maio de 2014



UMA CRÔNICA MUITO ENGRAÇADA


Eu queria fazer aqui uma coisa diferente das que habitualmente faço. Queria escrever algo extremamente engraçado.
Além de rir das coisas que se escrevem por aí, queria rir de algo que brotasse do meu íntimo.
O que posso escrever de engraçado me pergunto. O quê?
Não rio simplesmente. A piada tem que ser muito boa ou o tombo.
É bom ver alguém tombar feito jaca madura. E por falar em jaca a última que comi fez-me mal.
Não gosto de falar que algo faz mal. Acredito que só nós mesmos é que podemos nos fazer mal. Mas aquela!
Estava verde a jaca. Verde e grudenta. Não sei ainda por que eu a comi e depois quando vi já era tarde demais.
Comecei a me sentir mal e manifestou-se em meu corpo todos os sintomas de alergia. Não quero crer em alergia, mas as marcas vermelhas estavam todas na minha pele e a sensação ruim de não estar bem. Mas passou.
Como as coisas boas passam por nós e quantas vezes nem nos damos conta; mas as ruins também passam. É um consolo este.
Houve uma vez um tombo muito engraçado. Meu marido riu de me ver pendurando num cipó e balançando. Ele achou que eu iria cair, mas não; quem caiu foi ele. E que tombo!
Na hora eu ri muito, demais. Mas depois refletimos o quanto o tombo fora perigoso. Mas não houve nada e aquele tombo acabou sendo uma lição para ele.
Eu dizia para que ele nunca me subestimasse. Eu cresci entre cabras e muito verde. Não fui uma menina da cidade e as meninas que crescem no campo são muito mais destemidas que as outras.
Subir em árvores e adentrar-me pela mata sempre foi uma diversão.
A crônica acabou não ficando nada engraçada e pelo contrário acabou sendo só a lembrança de tempos atrás.


sonia delsin 


QUEM SABE ASSIM...

Hoje eu ouvi uma conversa de comadres. Destas que comentam as coisas em voz
bem alta, para que todos possam ouvir. Parece até que sentem prazer que
todos as ouçam.
Bem, eu ouvi e achei bem engraçado, por isto estou escrevendo.
Elas falavam um monte de "abobrinhas" e eu não podia deixar de ouvir, porque
as duas estavam bem próximas a mim e falavam alto.
Uma contou à outra que a amiga estava sentada no sofá da sala
fumando e limpando a orelha com um cotonete. Em dado momento, distraidamente,
ela inverteu as coisas e levou o cotonete à boca e o cigarro à orelha.
Foi um Deus nos acuda.
A moça deu um salto enorme e um grito muito alto. O
marido, não fumante, comentou com ela tranquilamente:
Quem sabe assim você aprende...
Ela contou que a amiga ficou uma enorme bolha na orelha.
─ Agora ela parou de fumar? ─ perguntou a moça de olhos claros.

 Que nada, fuma como uma chaminé. Com bolha e tudo, continua a fumar. Aquela não larga o cigarro nem com reza brava. ─ Respondeu a morena sorrindo.

sonia delsin


A ALGUÉM QUE PARTIU...
(para meu querido amigo Damasceno que vivia num abrigo de idosos)

Toda vez que eu olhar aquela porta uma dor apertará meu peito.
Como está agora apertado.
Partiste meu amigo amado.
Esta noite acordei e em ti eu pensei.
Contaram-me da tua morte ontem.
Contaram-me...
Eu não sabia.
Sei que aquela cadeira de rodas está vazia.
Como vazio está teu leito.
Não quero pensar que estás morto.
Quero pensar nas vezes que cantamos.
Nas vezes que falamos.
É duro aceitar a morte de quem amamos.
Eu te amei, meu querido amigo.
Amei tua sinceridade.
Tua simplicidade.
Amo ainda.
Porque a morte é só uma passagem.
Somos viajantes.
Vivemos numa eterna viagem.

Jamais esquecerei meu amigo que vivia num abrigo.

sonia delsin


O QUE SE DIZ, O QUE SE CONTA”

Dizem os antigos da cidade que em noite de lua cheia ela saía a cantar.
Toda de branco vestida sempre saía em noite de luar.
Se a alguns chegava a encantar, a outros chegava a assustar.
Os longos cabelos soltos pelas costas escorrendo. A longa saia ia o chão varrendo.
Em certas horas caminhava pelas ruas sem calçamento.
E por vezes ia correndo.
De repente parava, erguia os braços.
Parecia que rogava.
Será que Deus a escutava?
Ou era à lua que ela implorava?
Era uma mulher alucinada. Uma pobre coitada.
Diziam que foi enjeitada.
Tudo que conto escutei de um velho contador de estórias.
Ele arregalava os olhos à medida que me contava e me assustava.
Eu pedia que falasse mais e ele falava, falava.
Hoje em dia eu acho que ele inventava.
Eu perguntava se ela era uma bruxa. Ele me garantia que não. Me falava que era uma mulher movida pela paixão.
Acho que exagerava em tudo, pois dizia que ela era linda com seus cabelos desgrenhados. Que eram uns cabelos muito dourados.
E que o luar tingia de prata. Ficava igual uma fada. Uma mulher encantada.
Dizia que tinha os olhos grandes. Me garantia que eram os maiores que vira na vida.
Me falava até que pareciam dois faróis azuis.
Eu ficava imaginando.
Que beleza poderia haver numa mulher com faróis em vez de olhos e ele falava que era bela como a mais bela sereia. E que cantava em noites de lua cheia.
Falava que as melodias por ela cantadas eram lindas. Tão choradas.
Perguntei certa vez o nome dessa mulher e ele jurou não saber. Mas que talvez alguém soubesse e que quando descobrisse ia me dizer.
Passou o tempo e eu acreditando na mulher que passava as noites cantando.
Um dia o contador de estórias partiu e que ele criava tudo aquilo eu ficava pensando.
Mas em certa noite fui eu a ver.
Ela estava a correr.
Não nas ruas, que já eram todas asfaltadas.
Mas numa estrada dentro de mim. Na verdade naquela hora eu fitava um jardim.
Pensei que estava ficando igual ao contador. Também já podia ver, contar, escrever.
Éramos nós dois, eu e o Sebastião, dois criadores de estórias fantásticas. Desse dia em diante comecei a escrever meus contos. Tinha quinze anos então.
Ai que saudade de ti, meu velho Sebastião!
sonia delsin

domingo, 18 de maio de 2014



PARTI...

Eu passei horas debruçada na janela.
A olhar sabe o quê?
Nada.
À minha frente a cidade com seus encantos.
Cidade que me cativa.
Mas eu a ignorei naquela tarde.
Estava fazendo uma viagem interior e meus olhos estavam presos a nada.
Meus pensamentos estavam longe no tempo.
Estavam num tempo que eu voava.
Sim, eu voava.
Ao teu encontro eu ia como se borboleta fora.
Como se fora um alegre colibri.
Eu pensava.
Que vontade deste tempo aqui.
Mas nem sequer me movimentava.
Pra que me mexer?
Pra que perder a magia da hora?
Naquela hora eu lembrava e de novo voava.
Com meu ser que encontra esta facilidade sempre.
Voar...
Ir te encontrar, te beijar.
O gosto do teu beijo nunca de mim vai se apagar.
Mesmo que nunca mais nos vejamos.
Como esquecer como nos amamos?
Era tudo isso que eu pensava debruçada na janela.
A tarde ia e eu nem via que anoitecia.
De repente me deu uma agonia.
Uma vontade de voar sobre o vale que enegrecia.
Uma vontade de alcançar as luzes da avenida que mais aparecia.
Era ali que nos encontrávamos as tardinhas.
Na hora que o sol morria...
Quanta fantasia!
Deixei a janela.
Enxuguei a lágrima e ergui a cabeça.
Estufei o peito e falei pra mim.
Não faça assim.
Reaja.
Reagir?
Eu tinha mais era que partir.
E o fiz...
Deixei a cidade.
Deixei pra traz tudo.
Só ficou no peito a dor da saudade.

sonia delsin


NOSSOS ENSAIOS

Deus, que gostoso é participar deste grupo!
Antes eu nem sabia que podia cantar.
Um dia quis experimentar.
Descobri como me colocar no meio das outras vozes.
Além de cantarmos nós provamos algo muito bom.
Somos amigos.
Temos nossas fortalezas e nossas fragilidades.
Ali ninguém é mais que ninguém.
Cada um dá o melhor de si.
E brincamos um com o outro.
E rimos.
Como nos divertimos!
Mas na hora da seriedade cada qual faz a sua parte de verdade.
Se nos ensaios tantas vezes brincamos nas apresentações nos emocionamos.
Um grupo de seresteiros é algo diferente.
Estamos tentando resgatar o romantismo. Tentando resgatar uma outra época que nem vivenciamos.
As músicas são muito bonitas e muitas vezes me fazem viajar.
Eu que por natureza sou romântica e sonhadora adoro entre os seresteiros estar.

sonia delsin


SOLEDADE

Eu a conheci nos anos setenta.
Era uma pernambucana na cidade de São Paulo.
Uma moça forte, determinada.
Viera em busca de emprego, de instrução.
Moramos na mesma pensão.
Quantas ideias trocamos.
A olhar a rua, os prédios, os transeuntes na janela nós duas tantas vezes ficamos.
Soledade.
Hoje bateu uma saudade da nortista que se maquiava todas as manhãs diante de um espelho meio embaçado.
Eu ficava admirando a paciência dela.
O jeito.
Dos trinta e tantos ela já tinha passado.
Nunca tinha se casado.
Um dia eu lhe falei.
Logo vou me casar e depois que eu me casar você vai se casar também.
Ela respondeu: nem tenho namorado.
Falei que sentia que desta forma seria e ela sorriu.
E foi isso mesmo que aconteceu.
Num ano me casei.
E no seguinte ela se casou.
Com um tal de José por quem se apaixonou.
E mais, ela teve o primeiro filho antes que eu.
Soube que ela teve mais uma filha e depois nunca mais soube dela.
São lembranças de alguém que passou na minha vida.
Apenas e tão só algumas lembranças da

Soledade.

sonia delsin